O professor brasileiro

Posted: May 2, 2014 by Vitor C. in Educação e Sociedade
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Carta Escola   Veja   A_GazetaGlobo

EducPublica

Os professores que me perdoem, mas preciso admitir: somos muito fracos. Na última edição de Carta na Escola, um perfil do professor de literatura paulista foi traçado em linhas muito breves e ilustra o que se vê no Espírito Santo: docentes mal formados e com jornadas de trabalho exaustivas que dificultam seu aperfeiçoamento. Com o desprestígio da profissão, os jovens que mais se destacam no Ensino Médio fogem da carreira, legando-a a opção secundária. Trocando em miúdos, a maioria está no magistério por que não tinha outra opção.

Pode ser corporativismo da minha parte, mas acredito que a educação não vai melhorar enquanto a carreira de professor não se tornar mais atrativa. E não falo somente de salário (se não fosse a perda de 11% que o professor teve nos últimos anos, estaríamos ganhando muito bem), mas de melhoria geral das condições de trabalho: amplo tempo de planejamento, estímulo a atividades de pesquisa e formação acadêmica, aprendizado de língua estrangeira, desenvolvimento de projetos pedagógicos e tantas outras mudanças fundamentais.

Tenho insistido nisso: o governo deveria investir no básico, desenvolvendo aos poucos o acessório. Fico frustrado, contudo, quando leio que há mais escolas com internet do que com saneamento básico (A Gazeta). Não dá para melhorar a educação quando o complemento vem antes do essencial.

1. Carta na Escola. Abismo literário.

[…] A maioria dos docentes vem de famílias com baixa escolarização, teve pouco contato com a leitura na infância, fez Ensino Básico na rede pública e superior na particular e recebe salários baixos por jornadas excessivas que dificultam a formação.

2. Veja. Prestígio zero.

[…] Às vésperas de ingressarem na universidade, apenas 2% dos estudantes brasileiros pretendem seguir o magistério – opção que os outros 98% já descartaram. No levantamento, baseado numa amostra de 1500 alunos de ensino médio em escolas públicas e particulares de todo o país, o curso de pedagogia patina na 36ª colocação, entre as sessenta carreiras que hoje mais exercem fascínio sobre os jovens – lista encabeçada pelas áreas de direito, engenharia e medicina. Agrava o cenário saber que esses poucos que ainda optam pela docência se concentram justamente no grupo dos 30% de alunos com as piores notas na escola. Pouco disputado, o curso de pedagogia significa, para a imensa maioria dos estudantes, a única porta de entrada possível para o ensino superior – e não uma carreira de que realmente gostam. Conclui a especialista Bernardete Gatti, coordenadora da pesquisa: “Sem atrair as melhores cabeças para as faculdades de pedagogia, o Brasil jamais conseguirá deixar as últimas colocações nos rankings de ensino”.

3. O Globo. Professor: ainda o pior salário.

Tabulações feitas pelo O Globo nos microdados do Censo do IBGE mostram que a renda média de um professor do ensino fundamental equivalia, em 2000, a 49% do que ganhavam os demais trabalhadores também com nível superior. Dez anos depois, esta relação aumentou para 59%. Entre professores do ensino médio, a variação foi de 60% para 72%.

Apesar do avanço, o censo revela que as carreiras que levam ao magistério seguem sendo as de pior desempenho.

4. A Gazeta. Violência e medo fazem professor desistir da sala de aula.

O perigo da violência e o medo de ameaças que vêm dos alunos fazem com que professores da rede pública peçam exoneração de seus cargos. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), só na Grande Vitória foram 62 pedidos de demissão, devido ao problema, nos três primeiros meses deste ano nas redes municipal e estadual. O diretor de Organização do Sindiupes, Marcelo Castro, afirma que “praticamente todas” as solicitações estão relacionadas à insegurança no exercício da profissão. Ele explica que pelo menos 10% dos professores que saem das escolas foram vítimas de agressão física.

5. Educação Pública, eu apoio. Apagão docente.

[…] Um aspecto revelado no Censo [da Educação Superior], no entanto, preocupa: a redução do crescimento ou estagnação em várias licenciaturas, especialmente naquelas que são cruciais para o desenvolvimento do país. […]

O número de concluintes nos cursos de licenciaturas de todas as áreas sofreu uma redução de 6% em 2012 e tem oscilado com crescimento desigual desde 2004, enquanto os outros tipos de graduação apresentaram maior desenvolvimento no período. […]

Segundo o ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) Mozart Neves Ramos, a falta de professores já não se restringe às escolas públicas e ameaça o crescimento do país. “Isso coloca em risco nosso desenvolvimento tecnológico. Nas áreas consideradas mais estratégicas, o Brasil vai ter dificuldade de estabelecer massa crítica, com reflexos negativos na inovação, na produção de conhecimento e de patentes”, reflete o professor, que foi um dos idealizadores da proposta lançada pelo MEC para incentivar a formação docente. […]

Comparando o número de concluintes de administração em 2012, por exemplo, que é o curso que mais forma no Brasil – 12,8% do total de graduados em 2012 – com o de outras áreas de formação, o levantamento do Inep mostra o tamanho da desproporção na graduação superior. A cada matemático (licenciatura e bacharelado), foram diplomados 10,8 administradores; 19,4 para cada bacharel ou licenciado em química; e 49,2 administradores por egresso da física.

Além das exatas, biologia, geografia e educação artística são outras áreas com falta de professores apontadas pelo ex-reitor do Centro Universitário Uniabeu, Júlio Furtado, o que também indica carências regionais no interior das regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Para ele, estamos no início de um “apagão” de mão de obra docente. “Esse apagão é maior no ensino público e na educação básica, onde já se registra falta de mais de 300 mil professores em todo o país. Toda essa situação é responsável por muitos alunos sem aulas ou tendo aulas com professores que não são devidamente formados no que ensinam”, considera Furtado. […]

Quando o assunto é docência, segundo o Censo do Professor de 2007 do Ministério da Educação/Inep, dos professores que dão aula de física, 61% não foram formados sequer em áreas correlatas. Mozart Ramos, que é professor de química na UFPE e já foi secretário estadual de Educação de Pernambuco, lembra de quando visitou uma escola no interior daquele estado em 2006. “Descobri que quem ministrava a disciplina de química era a professora de geografia. Perguntei a ela como fazia para dar as aulas e ela respondeu que simplesmente copiava os conteúdos na lousa. Depois percebi que esse tipo de situação faz parte do cotidiano do ensino no país”, relata Ramos. […]

Não é só por desconhecimento que os jovens estão deixando de procurar a carreira de professor, mas justamente por conhecer o dia a dia das escolas que a profissão docente acaba renegada pelos pré-universitários. A falta de condições de trabalho e os baixos salários já são tema clichê na mídia e nas discussões sobre a educação brasileira. […]

Sugestões de leitura:

Fundação Carlos Chagas. Quem quer ser professor? [pdf]
Cadernos de Pesquisa. Remuneração e características do trabalho docente no Brasil.
Revista Educação. Quanto vale a valorização docente?
Vozes da Educação. Valorizar o professor: o que se quer dizer com isso?

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