Archive for the ‘Educação e Sociedade’ Category

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No último post, abri críticas à má formação dos professores brasileiros. Não esqueci, contudo, de falar das más condições de trabalho a que está submetido. As reflexões que tenho feito coincidiram com a matéria de capa de A Gazeta de hoje: Professor tem aula para encarar violência. A reportagem cita as histórias de uma professora e de uma diretora que tiveram que se afastar do trabalho após sofrer ameaças e agressão, bem como o assassinato do coordenador Guilherme de Almeida. Apesar da iniciativa louvável do Ministério Público de ensinar estratégias para lidar com a violência, não acredito que isso seja o bastante. A escola reflete o contexto em que está inserida e enquanto vivermos em uma sociedade excludente em que a pobreza é tratada como caso de polícia, a violência não terá fim.

1. Violência em debate nas escolas da rede estadual.

[…] O tema preocupa não somente pelas agressões de alunos aos seus próprios colegas, mas porque muitas vezes os professores também tornam-se vítimas […]. As causas mais apontadas para o aumento da violência no ambiente escolar pelos educadores de Linhares e Carapina que participaram das primeiras reuniões foram as drogas, o abandono das famílias e a mudança de valores.

2. Professoras deixam aulas após agressões.

[…] surpreendente foi a agressão que acabou em aposentadoria para X., 51, que era diretora. O agressor não era aluno da escola, mas estava querendo uma vaga. “Um colega disse para ele que tinha a vaga, mas eu não tinha como disponibilizar. Ele entrou na escola quando eu chamava outros alunos e veio conversando. Do nada, começou a me agredir e só parou quando os funcionários tiraram ele de cima de mim”, diz.

Depois do caso, o menor ficou 30 dias detido, mas a diretora voltou a ser ameaçada. “Um amigo dele pulou o muro e disse que ia pegar uma arma”, lembra. Situações que até hoje impactam profundamente a vida da aposentada. “Tenho medo de andar onde há muita gente. Mudei de município e meu braço ainda está inchado”, conta.

3. Violência e medo fazem professor desistir da sala de aula.

Entre os casos, há professores agredidos com cadeiras. Outros que sofrem ameaças de morte ou de danos ao patrimônio – por exemplo, destruição de carros. “Um aluno agrediu uma professora com uma cadeira. Depois que ela caiu, ele ainda deu dois chutes nela”, contou.

[O diretor do Sindiupes, Marcelo] Castro acredita que entre os motivos para esse tipo de conduta está a questão do enfraquecimento familiar. “Não adianta alguém na escola dizer que vai chamar o pai porque isso não vai afetar o aluno. Infelizmente há um enfraquecimento muito grande da família e o aluno não respeita nem os próprios pais”, observa.

Castro revela que a solução encontrada pela maior parte dos professores é o pedido de transferência para outra escola, dentro da mesma rede. “É uma opção quando se perde a via diplomática, preventiva. Antes que algo aconteça, o professor prefere sair daquela escola”, diz.

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Carta Escola   Veja   A_GazetaGlobo

EducPublica

Os professores que me perdoem, mas preciso admitir: somos muito fracos. Na última edição de Carta na Escola, um perfil do professor de literatura paulista foi traçado em linhas muito breves e ilustra o que se vê no Espírito Santo: docentes mal formados e com jornadas de trabalho exaustivas que dificultam seu aperfeiçoamento. Com o desprestígio da profissão, os jovens que mais se destacam no Ensino Médio fogem da carreira, legando-a a opção secundária. Trocando em miúdos, a maioria está no magistério por que não tinha outra opção.

Pode ser corporativismo da minha parte, mas acredito que a educação não vai melhorar enquanto a carreira de professor não se tornar mais atrativa. E não falo somente de salário (se não fosse a perda de 11% que o professor teve nos últimos anos, estaríamos ganhando muito bem), mas de melhoria geral das condições de trabalho: amplo tempo de planejamento, estímulo a atividades de pesquisa e formação acadêmica, aprendizado de língua estrangeira, desenvolvimento de projetos pedagógicos e tantas outras mudanças fundamentais.

Tenho insistido nisso: o governo deveria investir no básico, desenvolvendo aos poucos o acessório. Fico frustrado, contudo, quando leio que há mais escolas com internet do que com saneamento básico (A Gazeta). Não dá para melhorar a educação quando o complemento vem antes do essencial.

1. Carta na Escola. Abismo literário.

[…] A maioria dos docentes vem de famílias com baixa escolarização, teve pouco contato com a leitura na infância, fez Ensino Básico na rede pública e superior na particular e recebe salários baixos por jornadas excessivas que dificultam a formação.

2. Veja. Prestígio zero.

[…] Às vésperas de ingressarem na universidade, apenas 2% dos estudantes brasileiros pretendem seguir o magistério – opção que os outros 98% já descartaram. No levantamento, baseado numa amostra de 1500 alunos de ensino médio em escolas públicas e particulares de todo o país, o curso de pedagogia patina na 36ª colocação, entre as sessenta carreiras que hoje mais exercem fascínio sobre os jovens – lista encabeçada pelas áreas de direito, engenharia e medicina. Agrava o cenário saber que esses poucos que ainda optam pela docência se concentram justamente no grupo dos 30% de alunos com as piores notas na escola. Pouco disputado, o curso de pedagogia significa, para a imensa maioria dos estudantes, a única porta de entrada possível para o ensino superior – e não uma carreira de que realmente gostam. Conclui a especialista Bernardete Gatti, coordenadora da pesquisa: “Sem atrair as melhores cabeças para as faculdades de pedagogia, o Brasil jamais conseguirá deixar as últimas colocações nos rankings de ensino”.

3. O Globo. Professor: ainda o pior salário.

Tabulações feitas pelo O Globo nos microdados do Censo do IBGE mostram que a renda média de um professor do ensino fundamental equivalia, em 2000, a 49% do que ganhavam os demais trabalhadores também com nível superior. Dez anos depois, esta relação aumentou para 59%. Entre professores do ensino médio, a variação foi de 60% para 72%.

Apesar do avanço, o censo revela que as carreiras que levam ao magistério seguem sendo as de pior desempenho.

4. A Gazeta. Violência e medo fazem professor desistir da sala de aula.

O perigo da violência e o medo de ameaças que vêm dos alunos fazem com que professores da rede pública peçam exoneração de seus cargos. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), só na Grande Vitória foram 62 pedidos de demissão, devido ao problema, nos três primeiros meses deste ano nas redes municipal e estadual. O diretor de Organização do Sindiupes, Marcelo Castro, afirma que “praticamente todas” as solicitações estão relacionadas à insegurança no exercício da profissão. Ele explica que pelo menos 10% dos professores que saem das escolas foram vítimas de agressão física.

5. Educação Pública, eu apoio. Apagão docente.

[…] Um aspecto revelado no Censo [da Educação Superior], no entanto, preocupa: a redução do crescimento ou estagnação em várias licenciaturas, especialmente naquelas que são cruciais para o desenvolvimento do país. […]

O número de concluintes nos cursos de licenciaturas de todas as áreas sofreu uma redução de 6% em 2012 e tem oscilado com crescimento desigual desde 2004, enquanto os outros tipos de graduação apresentaram maior desenvolvimento no período. […]

Segundo o ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) Mozart Neves Ramos, a falta de professores já não se restringe às escolas públicas e ameaça o crescimento do país. “Isso coloca em risco nosso desenvolvimento tecnológico. Nas áreas consideradas mais estratégicas, o Brasil vai ter dificuldade de estabelecer massa crítica, com reflexos negativos na inovação, na produção de conhecimento e de patentes”, reflete o professor, que foi um dos idealizadores da proposta lançada pelo MEC para incentivar a formação docente. […]

Comparando o número de concluintes de administração em 2012, por exemplo, que é o curso que mais forma no Brasil – 12,8% do total de graduados em 2012 – com o de outras áreas de formação, o levantamento do Inep mostra o tamanho da desproporção na graduação superior. A cada matemático (licenciatura e bacharelado), foram diplomados 10,8 administradores; 19,4 para cada bacharel ou licenciado em química; e 49,2 administradores por egresso da física.

Além das exatas, biologia, geografia e educação artística são outras áreas com falta de professores apontadas pelo ex-reitor do Centro Universitário Uniabeu, Júlio Furtado, o que também indica carências regionais no interior das regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Para ele, estamos no início de um “apagão” de mão de obra docente. “Esse apagão é maior no ensino público e na educação básica, onde já se registra falta de mais de 300 mil professores em todo o país. Toda essa situação é responsável por muitos alunos sem aulas ou tendo aulas com professores que não são devidamente formados no que ensinam”, considera Furtado. […]

Quando o assunto é docência, segundo o Censo do Professor de 2007 do Ministério da Educação/Inep, dos professores que dão aula de física, 61% não foram formados sequer em áreas correlatas. Mozart Ramos, que é professor de química na UFPE e já foi secretário estadual de Educação de Pernambuco, lembra de quando visitou uma escola no interior daquele estado em 2006. “Descobri que quem ministrava a disciplina de química era a professora de geografia. Perguntei a ela como fazia para dar as aulas e ela respondeu que simplesmente copiava os conteúdos na lousa. Depois percebi que esse tipo de situação faz parte do cotidiano do ensino no país”, relata Ramos. […]

Não é só por desconhecimento que os jovens estão deixando de procurar a carreira de professor, mas justamente por conhecer o dia a dia das escolas que a profissão docente acaba renegada pelos pré-universitários. A falta de condições de trabalho e os baixos salários já são tema clichê na mídia e nas discussões sobre a educação brasileira. […]

Sugestões de leitura:

Fundação Carlos Chagas. Quem quer ser professor? [pdf]
Cadernos de Pesquisa. Remuneração e características do trabalho docente no Brasil.
Revista Educação. Quanto vale a valorização docente?
Vozes da Educação. Valorizar o professor: o que se quer dizer com isso?

Fico espantado com a quantidade de falsas ideias que andam circulando entre os profissionais da educação: professores, mas principalmente gestores escolares. Uma das mais difundidas é a de que o Governo do Estado é nosso patrão e, portanto, de que devemos acatar suas decisões. O argumento é tão impactante quanto vazio de qualquer significado: ele paga o meu salário, então ele é o meu patrão.

Se o argumento tem impacto é por que todo trabalhador preza pelo seu salário. Nas Ciências Humanas, o trabalhador também é chamado de “proletário”. Você sabe o porquê? Essa palavra vem do latim, a língua falada pelos romanos da Antiguidade. Para eles, os proletarii eram aqueles que não possuíam nenhuma propriedade, que só podiam oferecer ao Governo os seus filhos. Por isso, consideramos que a situação do trabalhador hoje em dia é parecida com a do proletário romano: o trabalhador tem poucas posses ou nenhuma; ele precisa vender a sua capacidade de trabalhar. O salário, portanto, é muito importante para ele – é tudo o que ele tem. Assim, quando se diz “quem paga o meu salário é o meu patrão”, o trabalhador fica assustado. Afinal, ele precisa vender sua força de trabalho.

Dizer que o Estado é nosso patrão, no entanto, é absolutamente falso. Para explicar o motivo, preciso citar quatro palavrinhas: República, cidadania, democracia e representação. A primeira dessas palavrinhas também vem do latim: res publica, que significa “coisa pública”, “assunto comum”. Assim, quando dizemos que o nosso governo é republicano, estamos dizendo que ele pertence a nós. Por isso mesmo, somos considerados cidadãos! Não somos empregados do Governo, não somos seus súditos, somos seus membros. Segundo o Professor Dr. Dalmo Dallari, “A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo”. Dizer que o governo é nosso patrão é considerá-lo como uma coisa acima de nós, diferente de nós e que não nos pertence. Quando aceitamos a ideia de que o governo é nosso patrão, estamos abrindo mão da nossa cidadania, estamos deixando de lado o nosso direito fundamental de participar desse governo.

Não é à toa que temos a impressão de que o governo não é nosso. Isso acontece por que a palavra democracia não tem significado real em nosso país. Democracia significa “governo do povo” e seu princípio fundamental é a igualdade. Todos são iguais perante a lei, todos podem igualmente ocupar cargos públicos, todos tem igual direito à manifestação. Para exercer esses direitos no agitado mundo moderno, criou-se a representação – nós votamos e elegemos nossos representantes: vereadores, deputados e senadores, prefeitos, governadores e presidentes têm a obrigação de defender os interesses do povo. No entanto, o que vemos é uma classe política afastada da população, eleita com base no dinheiro das grandes empresas e que representa interesses individuais. O nome disso é crise da representação. A classe política não nos representa. Esse é um governo dos ricos para o povo; não é do povo.

Meu raciocínio, dessa forma, é o seguinte: dizer que o governo é nosso patrão é: 1. Uma forma de botar medo no trabalhador. 2. Aceitar que o governo não é do povo. Essas duas ideias, que circulam entre os profissionais da educação, são inaceitáveis e devemos nos revoltar contra elas. A revolta é nosso dever de cidadãos.

Abusando da paciência do leitor, ainda falta falar de outra palavra: corrupção. Consideramos corrupto aquele indivíduo que rouba o dinheiro público, pegando para ele aquilo que é de todos. No entanto,  o filósofo grego Aristóteles tinha uma ideia mais interessante sobre corrupção. Ele não estava tão preocupado com os indivíduos que roubam, mas com o governo como um todo. Um governo justo é aquele que governa para o bem comum. Um governo corrupto é aquele que governa para interesses individuais. O problema do nosso país é muito mais grave do que os indivíduos canalhas que roubam (e que deve ser punidos exemplarmente). O problema é que o nosso governo está corrompido em todas as suas bases.

Comunicado de Greve Geral

Posted: April 10, 2014 by Vitor C. in Educação e Sociedade
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Ainda não sabemos se a nossa escola vai aderir à greve. Essa é uma decisão que precisa ser tomada em conjunto. No entanto, as insatisfações acumuladas nos anos de governo Casagrande estão estourando. Não se trata apenas da justa restituição da inflação, que nos tem sido negada há anos, desvalorizando nossos salários, mas também, da gestão democrática da escola, da melhoria das condições de trabalho em geral, do maior investimento na educação pública. A luta dos professores é pela nossa valorização profissional e por uma educação melhor para nossos alunos!

Em abril deste ano, os servidores estaduais vão receber um “aumento” de 4,5%. Cabem, no entanto, alguns esclarecimentos. Em primeiro lugar, não se trata de “aumento”, mas de reajuste ou restituição da inflação. Talvez vocês não saibam, mas existe um dispositivo na lei maior do país, a Constituição Federal, que garante o reajuste anual dos servidores. Assim afirma a lei:

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
[…]
X – a remuneração dos servidores públicos e o subsídio de que trata o § 4º do art. 39 somente poderão ser fixados ou alterados por lei específica, observada a iniciativa privativa em cada caso, assegurada revisão geral anual, sempre na mesma data e sem distinção de índices;

Toda lei, é claro, precisa ser interpretada. É preciso conhecê-la e conhecer também todas as leis suplementares que a regulam. No Brasil, o tribunal mais importante de todos, o que decide as coisas de maneira que ninguém possa contestar, é o Supremo Tribunal Federal (STF). E o que o Supremo entende dessa lei? Segundo o ministro Marco Aurélio Mello, quando os servidores lutam pelo reajuste salarial, não buscam “nenhuma forma de ganhar aumentos. Buscam, apenas, a indenização pelo descumprimento de um dever jurídico, de um comando constitucional”.

Observe o que diz o site da Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário Federal (FENAJUFE):

Ainda segundo o ministro, a revisão geral anual está assegurada na Carta Política [a Constituição], no artigo 37, X. Para ele, correção monetária não é ganho, nem lucro, nem vantagem. O reajuste, disse o ministro, é um componente essencial do contrato do servidor com a administração pública. Além disso, é uma forma de resguardar os vencimentos dos efeitos perversos da inflação.

“Assim, nem mesmo a alegação de eventual impacto financeiro negativo nas contas públicas justificaria a inobservância do dispositivo constante do artigo 37, X, da Constituição”, asseverou o ministro Marco Aurélio.

Então, o argumento é o seguinte: o servidor estadual, ao ser contratado, tem direito a um reajuste anual que cubra a inflação no período. Não se trata de ganhar aumento, trata-se de não perder! Tendo esse argumento em mente, resolvi fazer um breve levantamento dos reajustes dos últimos anos.

A primeira notícia que encontrei foi de 2010 – “Aumento de 4,5% para servidores do Estado” (capixabao.com). A gente já sabe, no entanto, que não se trata de aumento… Para completar, o então secretário de Estado de Gestão e Recursos Humanos, Ricardo de Oliveira, afirma que “a concessão do reajuste geral e linear para os servidores faz parte da política de valorização do Governo do Estado. ‘Esse é um compromisso assumido pela administração estadual desde 2005 para a valorização e motivação dos servidores'”. Absolutamente tudo errado. O reajuste é um direito, não uma concessão; e não é uma política do governo do Estado, é lei federal desde 1988… Um dado positivo é que a inflação acumulada no período foi de 4,31% (IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo) ou 4,11% (INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor).

Passando para 2011 (capixabao.com), de modo geral, o discurso continua o mesmo: o “aumento” é uma “concessão” do governo do Estado etc. No entanto, aparecem algumas coisas novas – e problemas mais graves. Em primeiro lugar, lê-se que o secretário de Recursos Humanos afirmou que “o benefício preserva o poder de compra dos servidores, é compatível com o Orçamento do Estado, garante o equilíbrio financeiro e respeita a Lei de Responsabilidade Fiscal“. Veja bem, a restituição de 5,5% aplicada em cumprimento de um direito, simplesmente não cobriu a inflação acumulada, que foi de 5,91% (IPCA) ou até 6,47% (INPC). Como já vimos, o ministro Marco Aurélio rejeitou o argumento do equilíbrio financeiro – o direito do servidor deve ser cumprido, o Estado que arranje outra maneira de equilibrar suas contas, o que ele não pode fazer é tirar um direito do servidor.

Em 2012 (g1.globo.com), o discurso foi absolutamente o mesmo: o governo está dando um aumento por que é bonzinho e esse aumento não fere o equilíbrio financeito. Novamente, nada disso é verdade e, mais grave, o reajuste de 4,5% não cobriu novamente a inflação, que foi de 6,5% (IPCA) ou 6,08% (INPC).

Em 2013 encontrei a primeira matéria crítica! Ufa! A reportagem de A Gazeta afirma:

O percentual está abaixo da inflação acumulada nos últimos 12 meses – que pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 6,49%, tendo o mês de abril como referência.

E sabem qual foi a resposta magnífica do secretário de Recursos Humanos? Adivinhem!

O secretário diz, no entanto, que os 4% foram definidos de acordo com a capacidade do governo de honrar a folha de pagamento e não ultrapassar os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). “Sabemos que o Espírito Santo está passando por uma série de reveses que impactam a receita e tivemos que definir o aumento de acordo com as possibilidades financeiras”, justificou.

Finalmente, em 2014 (eshoje.com.br), o reajuste será de 4,5%, embora a inflação tenha batido em 5,76% (IPCA) ou 5,43% (INPC). No entanto, a reportagem traz opiniões críticas a respeito. O deputado estadual Paulo Roberto (PMDB) afirma que

fez uma avaliação dos reajustes concedidos pelo estado aos servidores desde o ano de 2011. “Do ano de 2011 até fevereiro de 2014, o INPC acumulado chega a 25,6%, retratando a inflação. A diferença do INPC para os reajustes concedidos chega a 11%, ressaltou. Entretanto, ao mesmo tempo em que apresentou o déficit, o deputado afirmou que o estado não teria condições de arcar custos superiores aos 4,5% de reajuste.

Embora a justificativa do deputado seja fajuta, a informação que traz é importante. A tal política de valorização do servidor “concedida” pelo governo do Estado resultou numa perda salarial que se acumula hoje em cerca de 11%! Imagine isso… Quando fui concursado em 2010, eu ganhava cerca de 11% a mais do que ganho hoje… Faz muita diferença!

O representante do Sindicato dos Servidores Públicos está coberto de razão ao afirmar que

“O que nós queremos é data-base com reposição integral. Fizemos cálculo que até 28 de fevereiro o déficit do governo Casagrande é de 11% e não 4,5%. Entendemos que é mais uma vez uma demonstração de desrespeito e descaso com os servidores […]”.

Ele afirmou ainda que, o governador Renato “Casagrande não nos respondeu. A única reunião que tivemos foi no dia 19 onde o secretário de Gestão negou todas as possibilidades e ainda pediu para que tivéssemos fé“. Agora, depois de escrever tudo isso, eu pergunto a vocês: que brasileiro em sã consciência teria fé em um governo que vem sistematicamente negando nossos direitos e transmitindo notícias mentirosas pela mídia? Eu fico impressionado! Pedir fé é realmente acreditar que o povo brasileiro é muito burro… Esse senhor ofende o bom senso.

Eu quero deixar claro, meus alunos, que a luta dos servidores públicos não é por aumento, lucro ou benefício. É pelo simples cumprimento da lei, para que não se perca aquilo que foi combinado quando fomos contratados. Quem está fora da lei é o Estado.

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Os índices de inflação foram tirados do site da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Para simplificar, eu peguei a inflação acumulada no ano anterior ao do reajuste, ao invés de considerar, por exemplo, o período de março de 2013 a março de 2014, eu considerei o período janeiro a dezembro de 2013.

A_Gazeta

Um professor de Políticas Públicas da UFES, Roberto Garcia Simões, publicou uma ótima reflexão sobre a Educação pública nA Gazeta de hoje. Eu fico impressionado como raramente os problemas do nossa rede aparecem nos jornais. Vale a pena, portanto, acompanhar a reflexão. Cito trechos abaixo.

[…] No Ensino Médio, destaquei resultados da auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). O Espírito Santo aparece em primeiro lugar na contratação de professores temporários. E, em segundo lugar, na de profissionais sem formação específica para dar aula. Deste jeito, a educação é essencial para o desenvolvimento? […] As contratações permanentes no Estado estão sob a influência da pressão social e das pesquisas de opinião. A ênfase é na segurança — uma necessidade. Mas esgotou-se a possibilidade de o Tesouro suportar contratações na educação? Em quanto tempo é possível reduzir os temporários no Ensino Médio de 67% para 5%?

Carta na Escola.

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A Revista Carta na Escola publicou uma surpreendente entrevista com o ex-jogador e deputado federal Romário. O parlamentar criou um projeto de lei para tornar crime passível de prisão a divulgação de fotos ou vídeos íntimos sem a permissão da pessoa retratada. A lei vem para disciplinar uma ação que se torna cada vez mais comum nos nossos dias, levando-nos a refletir sobre a privacidade na era digital. Reproduzo abaixo alguns trechos mais relevantes. Clicando na imagem acima, você pode ler a entrevista completa.

Boa leitura!

Revenge porn, ou “pornografia de revanche”, é o ato de compartilhar sem permissão fotos ou vídeos íntimos de terceiros em redes sociais ou páginas da internet. Na maior parte dos casos, as vítimas são mulheres e os autores, homens com quem elas mantinham relações, não raro inconformados com a separação. […] a pornografia de revanche chamou a atenção do deputado federal Romário (PSB-RJ). Ele é o autor de projeto de lei que visa criminalizar a divulgação de nudez e atos sexuais sem permissão. O PL nº 6.630/2013 prevê pena de até três anos de detenção e indenização – a punição aumenta caso a vítima seja menor de idade ou tenha mantido relacionamento com o autor.

[…]

Carta na Escola – No final de 2013, aconteceram dois suicídios após disseminação de vídeos íntimos na internet. Como o projeto de lei ajudaria a evitar esse tipo de situação?
Romário – O projeto torna a lei mais rígida para que a pessoa que cometer o ­crime tenha punição equivalente à gravidade do ato e arque com suas consequências. Hoje as penas são brandas. Acredito que a ­exposição que o problema ganhou já ajudará a evitar, porque estão vendo que isso é algo muito sério. Também acredito que quem pensou em fazer isso vai pensar duas vezes com a possibilidade de detenção.

[…]

Carta na Escola – Por que a mulher é socialmente hostilizada quando um vídeo íntimo envolvendo-a é vazado, enquanto o homem, quando exposto em um vídeo de sexo, não sofre constrangimento social?
Romário – Questão machista. O homem é garanhão porque faz sexo, mas a honra da mulher é questionada. Pensamento extremamente atrasado, até mesmo violento.

[…]

Carta na Escola – Uma lei é capaz de influenciar a opinião pública a favor da punição dos responsáveis pela divulgação? A pressão sobre a mulher exposta diminuirá?
Romário – Sim, já vemos isso com a Lei Seca. Hoje as pessoas não tratam com naturalidade quem dirige bêbado e comete acidentes. Acho que acontecerá o mesmo. […]