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No processo de independência do Brasil, a Inglaterra surgiu como potência privilegiada, obrigando o novo país a aceitar os acordos que haviam sido firmados anteriormente com Portugal. Em busca de reconhecimento internacional, nosso governo se submeteu economicamente aos ingleses, o que limitou sua soberania e criou obstáculos ao nosso desenvolvimento. Celso Furtado, economista brasileiro que participou da elaboração do Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek  e criou a SUDENE, escreveu brevemente sobre o assunto em seu livro clássico Formação Econômica do Brasil. É uma leitura fundamental.

A forma peculiar como se processou a independência da América portuguesa teve consequências fundamentais no seu subsequente desenvolvimento. Transferindo-se o governo português para o Brasil sob a proteção inglesa e operando-se a independência da colônia sem descontinuidade na chefia do governo, os privilégios econômicos de que se beneficiava a Inglaterra em Portugal passaram automaticamente para o Brasil independente. Com efeito, se bem haja conseguido separar-se de Portugal em 1822, o Brasil necessitou vários decênios mais para eliminar a tutela que, graças a sólidos acordos internacionais, mantinha sobre ele a Inglaterra. Esses acordos foram firmados em momentos difíceis e constituíam, na tradição das relações luso-inglesas, pagamentos em privilégios econômicos de importantes favores políticos. Os acordos de 1810 foram firmados contra a garantia da Inglaterra de que nenhum governo imposto por Napoleão em Portugal seria reconhecido. Por eles se transferiam para o Brasil todos os privilégios de que gozavam os ingleses em Portugal – inclusive os de extraterritorialidade – e se lhes reconhecia demais uma tarifa preferencial. Tudo indica que negociando esses acordos o governo português tinha estritamente em vista a continuidade da casa reinante em Portugal, enquanto os ingleses se preocupavam em firmar-se definitivamente na colônia, cujas perspectivas comerciais eram bem mais promissoras que as de Portugal.

A Independência, se do ponto de vista militar constituiu uma operação simples, do ponto de vista diplomático exigiu um grande esforço. Portugal tinha em mãos uma carta de alto valor: sua dependência política da Inglaterra. Se se interpretasse a independência do Brasil como um ato de agressão a Portugal, a Inglaterra estava obrigada a vir em socorro de seu aliado agredido. As démarches feitas em Londres nesse sentido pelo governo lusitano foram infrutíferas, pois, para os ingleses, restabelecer o entreposto português seria obviamente mau negócio. O que importava era garantir junto ao novo governo brasileiro a continuidade dos privilégios conseguidos sobre a colônia. Assim, de uma posição excepcionalmente forte, pôde o governo inglês negociar o reconhecimento da independência da América portuguesa. Pelo tratado de 1827, o governo brasileiro reconheceu à Inglaterra a situação de potência privilegiada, autolimitando sua própria soberania no campo econômico.

A primeira metade do século XIX constitui um período de transição durante o qual se consolidou a integridade territorial e se firmou a independência política. Os privilégios concedidos à Inglaterra criaram sérias dificuldades econômicas […]. Essas dificuldades econômicas, por um lado, reduziam a capacidade de ação do poder central e, por outro, devido ao descontentamento, criavam focos de desagregação territorial.

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 32ª Ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 2005. p. 46-48.