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Para quem ainda acha que História é coisa do passado, vale a pena conferir a matéria da Carta Maior sobre o ressurgimento do darwinismo social na atualidade. Repaginado pelas novas descobertas científicas, nem por isso deixa de abusar da teoria da evolução para justificar a dominação e a desigualdade – o artigo é contundente. Para ler, basta clicar na imagem acima.

Reproduzo abaixo uma seleção de trechos na intenção de transmitir o sentido geral do artigo, o que não dispensa sua leitura completa.

A dificuldade inerente ao uso dos GWAS [Estudos de Associação do Genoma Completo, na sigla em inglês] para explicar a estatura, uma característica facilmente mensurável e quantificável, traz à tona o absurdo de sustentar a necessidade de identificar as bases genéticas de características mal definidas, temporalmente variáveis e de difícil quantificação, como a inteligência, a agressividade ou as preferências políticas.

Apesar disso, o plano do determinista genético na era genômica é claro: obtenha quantidades massivas de dados de sequências genéticas. Encontre uma característica mal definida (como a preferência política). Encontre um gene que está estatisticamente sobrerrepresentado na subpopulação que possui a característica. Declare a vitória. Ignore o fato de que os genes, na realidade, não explicam a variação fenotípica da característica. Em vez disso, diga que, se houvesse mais dados, as estatísticas confirmariam.

A partir daí, generalize esses resultados ao plano de análise das sociedades e argumente que eles explicam as bases genéticas fundamentais do comportamento humano. Redija uma nota à imprensa e espere que os meios de comunicação publiquem notícias chamativas. Repita o processo com outro conjunto de dados e com outra característica. […] O determinismo biológico parece plausível precisamente porque oferece a ilusão de que se baseia na observação científica. Nenhum cientista coloca em dúvida o fato de que os elementos constitutivos mais básicos de um organismo estejam codificados em seu material genético […]. Mas atribuir o comportamento humano, seja o de comer um saco inteiro de batatas fritas ou de declarar a guerra, a um conjunto de genes constitui um exercício claramente quixotesco.

[…] Não tem sentido realizar modelos de máquinas escavadoras com quarks. Ainda que seja certo que todas as propriedades de uma máquina escavadora sejam o produto das partículas que a constituem, como quarks e elétrons, é inútil pensar sobre as propriedades de uma escavadora (forma, cor, função) em termos dessas partículas. A forma e a função de uma máquina escavadora são propriedades emergentes do sistema em seu conjunto. […] O atrativo do determinismo biológico está no fato de que oferece explicações científicas plausíveis para dar conta das contradições civilizatórias engendradas pelo capitalismo. Se o diabetes tipo II se reduz a um problema genético (o que, até certo ponto, é correto), então já nem precisamos pensar no aumento da obesidade e de suas causas, e tampouco: no monopólio empresarial privado do setor agroalimentar, na desigualdade de renda da cidadania e nas diferenças de classe em relação à qualidade dos alimentos consumidos.

Combine isso com a prevalência da medicação impulsionada pela indústria farmacêutica para o tratamento de todo tipo de doença, e ninguém deverá se surpreender se, ao final, ficarmos com a impressão de que os fenômenos sociais complexos podem se reduzir a um simples fato científico. […] A história está repleta de exemplos aterrorizantes sobre o abuso da genética (e da teoria da evolução) para justificar a dominação e a desigualdade: as justificativas evolutivas da escravidão e do colonialismo, as explicações científicas da violação e do patriarcado, e as explicações genéticas da superioridade inerente à elite governante. Devemos trabalhar sem descanso para nos assegurar de que a história não vá se repetir na era genômica.