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Nossa História.

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A Revista Nossa História foi a primeira no Brasil a trabalhar com divulgação científica na área de História. Ela fechou em 2006, sendo substituída pela atual Revista de História da Biblioteca Nacional. Felizmente, eu ainda guardo alguns números (inclusive o primeiro!) daquela revista cuja leitura foi fundamental para mim. Abaixo, transcrevi alguns trechos da entrevista de Niède Guidon da edição de agosto de 2005. As marcações em vermelho fui eu que fiz para chamar a atenção para trechos mais importantes. Boa leitura.

Entrevistar a arqueóloga Niède Guidon não é uma tarefa simples. Não que a diretora da Fundação do Homem Americano, que administra o Parque Nacional da Serra da Capivara, seja arredia com a imprensa, pelo contrário. A questão é que, para chegar ao município de São Raimundo Nonato (PI), onde se encontra o parque, é necessário enfrentar a BR-235, que, em seu trecho baiano, não merece ser chamada de rodovia, dada a profusão de buracos. A dificuldade de acesso que restringe o turismo, somada à violência e à miséria da região e à crônica falta de apoio governamental ao parque, não esmorece essa paulista de Jaú, que, aos 69 anos, luta contra tudo e todos para preservar e divulgar um tesouro guardado na Serra da Capivara: o maior conjunto de pinturas rupestres existente no mundo. A paixão pelo parque fez com que Niède, em 1991, trocasse a confortável vida de professora em Paris pelos rigores do interior da Piauí e enfrentar caçadores, madeireiros e burocratas na defesa desse patrimônio. As polêmicas que enfrenta envolvem também a comunidade acadêmica, já que diversos arqueólogos, especialmente nos EUA e no Brasil, contestam suas datações, que sugerem a presença humana no continente há mais de 30 mil anos. Solteira e sem filhos, Niède vive no próprio parque, num ambiente que, segundo ela, funciona como antídoto para qualquer depressão. Foi nesse cenário que ela recebeu a equipe de Nossa História, entre as árvores e tendo como música de fundo o duelo de canto entre uma arara e um cancã.

Nossa História – Quando a senhora travou contato com as pinturas rupestres da Serra da Capivara?
Niède Guidon – A primeira vez que eu vi fotografia delas foi em 1963, antes de sair do Brasil, e aproveitei uma viagem em 1970 para conhecer pessoalmente. Constatei que era algo diferente do que se conhecia.

NH – Quando elas foram feitas?
NG – Nas pinturas e nos artefatos nós temos datações por carbono 14 de 17 mil e de 23 mil anos. Ainda não publicamos uma datação de 35 mil anos feita pelo professor Watanabe [doutor em Física e líder do Laboratório de Cristais Iônicos, Filmes Finos e Datação do Instituto de Física], da USP, pois ele ainda está testando com outros físicos.

NH – Essas datações são aceitas pela comunidade científica?
NG – Na Europa, sim; nos Estados Unidos e aqui no Brasil alguns arqueólogos não aceitaram. Disseram que esse material não fora lascado pelo homem, mas que caíra e lascara naturalmente. Eu mandei as amostras mais antigas para a Texas A&M University, nos Estados Unidos, que tem excelentes laboratórios de mecânica. Eles analisaram a o material e constatam que houve, sim, fabricação humana.

NH – O que se sabe das pessoas que fizeram essas pinturas e essas ferramentas?
NG – Eram seres humanos como nós. Caçadores e coletores que viviam numa região extremamente rica. Há 9 mil anos, o que hoje é o Piauí tinha um clima tropical úmido, como o da Amazônia, com grandes rios, abundância de animais e diversidade vegetal. Aqui se encontravam, pelo norte, uma Floresta Amazônica e, pelo Sul, a Mata Atlântica, o que tornava a região riquíssima. Essas pessoas podiam viver com tranquilidade e gravar nos paredões suas vidas, seus mitos e suas lendas.

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NH – Qual a importância desse conhecimento hoje?
NG – Depende. Os europeus são muito interessados em conhecer suas origens. Já o brasileiro age como se não tivesse raiz. Basta ver a impressão a respeito dos índios. Já ouvi gente dizer que os índios eram ‘um bando que vivia por aí que nem bicho’. Só que, quando você estuda, descobre, por exemplo, que, em termos pré-históricos, a tecnologia de lascamento de pedras dos índios tem a mesma qualidade da encontrada na França. As pinturas estão no nível das de Lascaux [caverna perto da cidade francesa de Montignac. Suas notáveis pinturas rupestres foram descobertas por adolescentes em 1940]. Meus colegas franceses dizem que as pinturas rupestres brasileiras são ‘obras-primas’ da humanidade. Aqui no Brasil nós temos o maior conjunto de pinturas rupestres do mundo. Não só aqui no Piauí, mas em todo o Nordeste. Comparando com isso, o material rupestre nos EUA e no Canadá é pouco e muito pobre. Na parte da cerâmica, temos a arte marajoara, temos construções feitas para evitar enchentes. Indo para o Peru, temos os incas, que construíram um império. Na América Central, temos maias e astecas. E nos Estados Unidos e no Canadá temos o quê? Se eles chegaram primeiro lá, porque só foram fazer isso tudo aqui? Acredito que a presença do homem na América do Sul seja muito mais longa, permitindo esse desenvolvimento. Além disso, durante a glaciação [fenômenos climáticos que ocorreram ao longo da história da Terra, caracterizados pela redução drástica da temperatura global e pelo avanço das geleiras. A última glaciação ocorreu entre 25000 e 9000 anos atrás], a América do Norte tinha glaciais até bem embaixo. Todas as grandes civilizações se desenvolveram em clima quente. Egito, Mesopotâmia…

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NH – A preservação na região é precária?
NG – Nossa região é riquíssima em arqueologia, mas toda plantação de soja ao sul foi feita sem que nenhum arqueólogo passasse antes para ver se tinha algum sítio. Tudo bem, a soja está trazendo dinheiro para o Piauí, mas até quando? Depois de dez anos, a terra está completamente exausta, e os plantadores vão abrir novas matas, levando o deserto com eles. Quando eu cheguei aqui, o rio Piauí corria. A cidade tinha dez lagoas com patos e garças. Uma coisa lindíssima. Vai ver hoje. Soja tem no mundo inteiro. A Serra da Capivara só tem aqui.

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NH – Não se arrepende [de ter largado tudo em Paris e vindo para o Piauí]?
NG – Não. Esse parque é uma coisa maravilhosa. Quando estou muito deprimida, eu vou para lá e pronto, passa. Naturalmente, eu tinha outra vida em Paris. Toda noite eu ia ao teatro, ao cinema, à ópera, aos concertos. Aqui, não vejo nada disso. Mas, tem esse parque, pelo qual eu luto até o fim. Se eu perder, perdi. Mas, eu acho que estou cumprindo o meu dever de brasileira.

Roda Viva.

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Clicando no logotipo do Roda Viva, acima à direita, você pode ler a entrevista de Niède Guidon, uma das mais importantes arqueólogas brasileiras ao programa da TV Cultura. O vídeo, infelizmente, só traz um pequeno trecho da entrevista, mas vale a pena conferir. Abaixo, copiei a apresentação que o programa fez da arqueóloga.

‘Quem foram esses primeiro brasileiros? Como surgiram? Como viveram?’ E quem imaginou que um dia teríamos de fazer essas perguntas em pleno sertão do Piauí e ali mesmo encontrar algumas respostas? É essa a paisagem deserta em São Raimundo Nonato, no sudeste piauense, que está ajudando a reescrever a pré-história brasileira. A área tem hoje a maior concentração de sítios arqueológicos das Américas, são mais de 700, além de um conjunto de mais de 25 mil desenhos rupestres, os mais importantes vestígios descobertos sobre nossa antiguidade. A região virou patrimônio cultural da humanidade e deu origem ao parque nacional da Serra da Capivara.

As primeiras histórias novas da nossa história velha foram reunidas por uma equipe da TV Cultura que, em 1992, se embrenhou nesse sertão e produziu um documentário Pré-história da Pedra Furada. Num trajeto poeirento e penoso pela caatinga e pelas rochas, a equipe chegou à Toca do Boqueirão da Pedra Furada, em busca da personagem que começou a investigar a antiguidade no Piauí, Niède Guidon. Paulista, filha de francês com índio, formada em história natural na Universidade de São Paulo [USP] e graduada em arqueologia pela Universidade de Sorbonne, ela trocou Paris pelo sertão, em busca das pegadas do homem no Brasil pré-histórico. Ela chegou a São Raimundo Nonato em 1970, de jipe, atraída pelas pinturas rupestres que viu por fotografia. Com a ajuda dos moradores e mais duas viagens, foi ampliando as descobertas e, em 1975, montou a equipe de cientistas e auxiliares que fariam as escavações. Após dez anos de trabalho e muita terra revolvida juntou-se uma infinidade de ossos, pedras lascadas e restos de fogueira.

O carvão estudado revelou que o homem passou por ali há cerca de 50 mil anos e contrariou a teoria de que a primeira chegada do homem ao Brasil foi há 12 mil anos. Esse homem teria origem nas tribos nômades da África que se deslocaram para a Ásia, enfrentaram as geleiras da Sibéria e, numa época que o estreito de Bering congelou, fizeram a travessia para o Alasca se espalhando depois pelas Américas. Niède Guidon sugeriu outra hipótese, o homem teria atravessado o estreito de Bering muito antes do que se calculou, ou ,então, ele chegou aqui pelo mar. As descobertas em São Raimundo Nonato foram parar nas principais revistas científicas do mundo, equipes de TV do Japão e da Alemanha vieram ao interior do Piauí ver as pinturas e o acervo da fundação Museu do Homem, criada por Niède Guidon, para mostrar o enorme quebra-cabeças de ossos, pedras e fósseis da vida exuberante do Piauí pré-histórico.

Estes dentes grandes são do tigre de dentes-de-sabre que viveu aqui, a tíbia [osso da perna] é de uma preguiça gigante que pesava três toneladas e era maior que o elefante. Estas placas são dos cascos de um tatu que tinha o tamanho de um Fusca [modelo de carro popular da Wolkswagen]. Hoje, esse lugar seco onde o urubu-rei voa silencioso parece sobreviver apegado apenas à teimosia que sustenta a vida no sertão. A fundação Museu do Homem que, junto do Ibama [Insituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] cuida do parque nacional da Serra da Capivara, está sem verbas e não consegue fiscalizar caçadores, lenheiros. Durante décadas, milhares de árvores nobres foram cortadas e queimadas para transformar pedra em cal, tradicional fonte de renda da região. Restos desses fogos se intrometeram na paisagem, onde um outro fogo, há milhares de anos, deu luz e calor à vida que se busca desvendar nas rochas de São Raimundo Nonato.

Nos desenhos mais antigos essa gente parecia alegre, dançava, registrava cenas de sexo. Mais tarde, outros desenhos, com mais cores, revelaram as primeiras cenas de luta, entre eles, que desfez grupos, e também de união para enfrentar animais perigosos. Esses povos podem ter desparecido há 6 mil anos. Depois deles, vieram outros na aventura humana de nascer, sobreviver e morrer. Deixaram pouquíssimos registros e há dúvidas sobre se desaparecerem ou se vieram a dar origem aos nossos índios. As crianças da região, que têm o privilégio de estudar ao vivo essa pré-história, se encantam e levam para seus cadernos as peças do quebra-cabeças da nossa história antiga. Quanto dessa história compõe nossas raízes e nosso espírito, não sabemos ao certo, apenas seguimos sem muita noção do futuro que nos espera e sem saber direito que passado tivemos”.