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A Revista Língua Portuguesa de fevereiro de 2014 trouxe uma excelente edição comemorativa de sua centésima publicação. O dossiê principal, “100 mitos da linguagem” quebra muitos lugares comuns importantes. Eu fiz um esforço para selecionar três, que digitei para vocês. Os outros 97 podem ser lidos na escola, que possui dois exemplares para consulta.

Boa leitura!

1. “Saudade” só existe em português.

A palavra “saudade” não é particularidade da língua portuguesa. Porque derivada do latim, existe em outras línguas românicas. O espanhol tem soledad. O catalão soletad. O sentido, no entanto, não é o do português, está mais próximo da “nostalgia de casa”, a vontade de voltar ao lar.

A originalidade portuguesa foi a ampliação do termo a situações que não a solidão sentida pela falta do lar: saudade é a dor de uma ausência que temos prazer em sentir. Mesmo no campo semântico, no entanto, há correspondente, no romeno, mas em outra palavra: dor (diz-se “durere”).

É um sentimento que existe em árabe, na expressão alistiyáqu ‘ilal watani. O árabe pode, até, ter colaborado para a forma e o sentido do nosso saudade, tanto quanto o latim. […]

35. “Presidenta” é invenção da Dilma.

A palavra “presidenta” é usada em português ao menos desde 1872. Foi usada por Machado de Assis em 1880, no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. E abonada no Vocabulário Ortográfico e Ortoépico da Língua Portuguesa, de Gonçalves Viana (Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1909). (Leo Ricino) […]

61. Todo escravo era analfabeto.

Muitos escravos no Brasil tinha familiaridade com a escrita, portuguesa ou não (os malês da Bahia escreviam em árabe suas orações a Alá). Em anúncios de jornais e documentos, a descrição física e das habilidades dos escravos fugidos ou à venda realçava marcas e cicatrizes, é verdade, mas também atributos, como ofício, capacidade de leitura ou escrita, úteis em atividades especializadas, como alfaiate, pedreiro ou carpinteiro, que exigiam uso de cálculos e escrita. […].

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O Brasil vive prosperidade mendiga na leitura. A escolaridade média do brasileiro melhorou como nunca na última década, assim como a inclusão no sistema de ensino. O brasileiro comprou mais de 469 milhões de exemplares de livros em 2011. O Plano Nacional do Livro e Leitura mapeou 900 atividades listadas pelo Estado para incentivo à leitura. Mas os sintomas do avanço parecem a ponta do iceberg do atraso: se é verdade que nunca se leu tanto no país como na era da internet, também é fato que nossa qualidade da leitura, historicamente ruim, ganhou agora precisão de pesquisa. O indicador do Analfabetismo Funcional 2011-2012, do Instituto Paulo Montenegro em pareceria com a ONG Ação Educativa, mostra que só 1 em cada 3 brasileiros com ensino médio completo é de fato alfabetizado (35%), e 2 em cada 5 com formação superior (38%) têm nível insuficiente em leitura. É gente que ocupa o refinado nicho das pessoas qualificadas do país. Parcela significativa da população, elas simplesmente não entendem o que leem. A pesquisa mostra que só 1 em 4 brasileiros (26%) é mesmo alfabetizado, idêntico patamar verificado em 2001, quando o indicador foi calculado pela primeira vez. Os analfabetos funcionais representam 27% do país e menos da metade da população (47%) tem nível de alfabetização considerado básico. A maioria não sabe o elementar para ser entendida ao rascunhar, se muito, um mero bilhete. […].

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NATALI, Adriana. O apagão da leitura. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, ano 8, n. 83, set. 2012. p. 40-45. (Fragmento adaptado.)